(o imaginário que nos povoa)
A primeira característica do meu trabalho que é evidenciada, tem a ver com a narratividade das minhas telas. É um fenómeno que se desenrola de modo invulgar, que alude através do meu trabalho a diversas personagens que, em tempos e lugares imaginados, mas sobretudo criados através da linguagem plástica do desenho, participam na mesma história, como que evidenciassem a forma de captar o tempo num só momento, o antes e o depois, em frente de nós.
As minhas telas chegando a resultados mágicos, que tocam o duvidoso e o ilusório, manifestam esse retrato impossível do sonho, como que sensibilizado a um clarão, lembrando a sua origem fragmentária e incongruente. As personagens diversas inseridas em ambientes poéticos são o resultado da mente sonhadora e de um diferente e cativante sonhar da vida. Cada uma das personagens sublinha uma etapa dessa história, que é sobretudo emotiva, que vale principalmente pela intensidade substancial dos sentimentos, muito mais do que a definição das acções. Essas personagens apontam para a concretização do sonho, esse principal elemento de desobediência que tudo torna real e visível, as fábulas, que apenas podem existir na imaginação mas que se tornam verosímeis dos paradigmas, mitos e magia do nosso subconsciente.
A evidência ao sonho é a primordial citação das muitas a que eu recorro. No meu trabalho, o recurso a diferentes personagens apela a um sentimento criativo, abrindo janelas que pretendem incorporar elementos preexistentes cuja citação nos apela para o nosso imaginário infantil e sonhador. Tal método, pretende reforçar o corte impossível do tempo criando uma narrativa, apelando ao envolvimento emotivo, muito mais do que pelo desenrolar circunstancial.
Cada personagem como elemento, contribui para o desenvolver da narrativa intemporal, que transmite sensações mistas. Estas oscilações de sensações e mensagens são apresentadas de uma forma aparentemente simples, porque o aspecto delicado evidenciado nas minhas telas com um latente momento temporal, manifestamente afastado do real com um pendor ingénuo e colorido e com a componente simbólica que se lhes podem atribuir.
Em realidade, todos nós não esquecemos que as fábulas são feitas de mochos que vigiam a floresta, de raposas que comem esquilos, de coelhos que atravessam prados e rios em perigo, e de personagens que imaginam ferozes ataques aos visitantes do bosque. Desta forma quero alertar que o mais difícil é apresentado pelo lado mais doce, como se vos obrigasse a lembrar tanta coisa, mesclando todos os sentimentos, todas as personagens, todas as mensagens, para vos falar, muito mais de perto, das historias que povoam o nosso imaginário de agora e de sempre…